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O projeto

O Projeto Iara Iavelberg tem por objetivo criar um espaço de acolhimento e escuta para o sofrimento social, oferecendo os atendimentos psicológicos, psicanalíticos e educacionais; além de debates, escutas coletivas e formações. No projeto serão oferecidos atendimentos psicológicos clínicos ou educacionais para crianças, adolescentes e adultos. O projeto consiste em conectar profissionais formados e capacitados com pessoas em busca de um espaço de escuta na modalidade de clínica social.

O contexto

O projeto se funda na constatação de que após dois anos de pandemia a situação no Brasil é dramática. Isso porque já existia uma crise societária em curso quando fomos atingidos pela pandemia do Covid-19 e porque ao invés de combater a crise, o governo Bolsonaro produziu devastações e inverdades, levando o Brasil a apresentar uma taxa de mortalidade pelo vírus maior que três vezes a média mundial. Fome, desemprego e inflação se somam a outras violências cotidianas enfrentadas pelos trabalhadores. Tendo isso em consideração, a criação deste projeto foi movida pela necessidade urgente em criar um espaço para trabalhar com as consequências dessa barbárie instaurada na conjuntura atual, seus efeitos subjetivos e suas consequências objetivas. 

 

Nossa proposta é oferecer condições para transformação de sintomas contemporâneos, que se apresentam em quadros descritos como depressão, ansiedade, bipolaridade, entre outros. Essas experiências de sofrimento não deixam de ser a própria expressão das contradições de uma sociedade que, apesar de habitada por bilhões, impõe uma ruptura nos laços entre os pares em nome da sobrevivência de cada um neste mundo desigual. Nossa aposta é no caráter radical da linguagem que, no interior de um dispositivo de escuta, possa dar lugar a algumas dessas contradições e em suas expressões no particular. Longe de buscar uma adaptação dos sintomas a essa sociedade produtora de sofrimentos, o projeto busca poder escutar e transformar as violências que já gritam diariamente em cada esquina desse caos que chamamos de cidade, a partir de uma recriação das formas de viver a linguagem e de transformá-la em atos de mudanças.

A homenagem

O Projeto Iara Iavelberg homenageia uma importante psicóloga e militante do nosso país. Iara fez frente à ditadura empresarial-militar de 1964 e participando de organizações políticas importantes. Além disso, buscou contribuir para o desenvolvimento de uma psicologia aliada à emancipação dos trabalhadores. Iara foi assassinada nas mãos da ditadura empresarial-militar de 1964. Nossa homenagem é também um resgate sobre o papel social e o destino da psicologia como área de conhecimento e como campo de atuação na transformação da sociedade brasileira.

 

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Como se inscrever?

Se você está interessado(a) nos atendimentos com os profissionais que se dispuseram a participar do projeto, inscreva-se pelo formulário abaixo.

Perguntas Frequentes

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Iara Iavelberg

 

Iara Iavelberg foi uma estudante de psicologia e militante assassinada pelas forças repressivas do Estado aos 27 anos, durante o período de ditadura empresarial-militar, em 1971. 

 

Iara veio de uma família judaica e comerciante, que morava em um bairro operário, casou-se aos 16 anos e se separou durante a universidade. Ingressou no Curso de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), em 1963. Segundo relatório da comissão da verdade:

 

“Nesse período, Iara passou a atuar no grupo de teatro da USP (TUSP), onde realizou leituras dramáticas de Oswald de Andrade e Bertold Brecht. Também era frequentadora da Cinemateca Brasileira e do Cine Bijou. Iara foi presidente da Associação Universitária dos Estudantes de Psicologia, onde defendeu a participação estudantil nas decisões sobre a estrutura do curso e se envolveu no debate, ainda incipiente, sobre as internações compulsórias. Contribuiu para a criação do Serviço de Atendimento Psicológico (SAP), voltado para um público de baixo poder aquisitivo. Em 1968, Iara ingressou na pós-graduação e atuou como professora-assistente no Instituto de Psicologia da USP.”

 

De acordo com relato de seu irmão Samuel, durante a formação em psicologia, Iara começou a contribuir com aulas em um cursinho preparatório organizado pelo movimento secundarista. Nesse momento estavam sendo convocadas assembleias para organizar o enfrentamento ao golpe militar, o que levou os dois a se envolverem no Movimento Estudantil. 

 

Ecléa Bosi, em seu depoimento para o Centro Acadêmico de Psicologia da USP, lembra da memória de Iara como uma estudante muito séria e ao mesmo tempo considerada generosa por seus colegas. Relata que muitos anos depois, em um de seus trabalhos enquanto professora, Iara estava estudando e fazendo análise de conteúdo dos discursos do Fidel Castro, mas nunca chegou a concluir pois no mesmo período entrou na clandestinidade. 

 

O assassinato de Iara 

 

Iara morreu jovem, no ano de 1971, assassinada pela polícia aos 27 anos de idade em Salvador. Por anos, sua morte foi considerada pelo Estado como suicídio pela versão do DOI-CODI no relatório da Operação Pajussara. Assim como ocorreu com outros militantes, esse relatório começou a ser contestado com as páginas retiradas do diário de Lamarca, o qual relatava quais destes haviam sido presos e torturados em Salvador na época. 

 

Entretanto, ainda que o Estado tenha ocultado as circunstâncias de sua morte, por conta da violência ter vindo de parte de sua segurança, as contradições e divergências sobre a morte de Iara aparecem entre os relatórios das Forças Armadas e da Marinha. No relatório da Comissão da Verdade é exposta essa contradição: “enquanto o da Marinha afirmou que Iara “[…] foi morta em Salvador (BA), em ação de segurança” o da Aeronáutica asseverou que “[…] se suicidou em Salvador (BA) [...] no interior de uma residência, quando esta foi cercada pela polícia”. 

 

Os parentes de Iara nunca se conformaram com o relatório e persistiram por anos na justiça para conseguir mais informações a respeito da morte de Iara. Foram 13 anos de batalhas judiciais para que os restos mortais de Iara fossem exumados, para nova análise da perícia. Em 2013, após 42 anos da sua morte, foi realizada uma audiência pública pela Comissão da Verdade Rubens Paiva de São Paulo sobre o caso, comprovando após a realização de nova perícia, que Iara foi assassinada. Em audiência, participaram o irmão de Iara, sua sobrinha Mariana Pamplona, o médico Daniel Muñoz e o advogado da família Luiz Eduardo Greenhalgh. 

 

Uma inspiração para dar voz ao sofrimento que oprime a classe trabalhadora

 

Iara demonstrou um compromisso intelectual e militante inspiradores durante um período muito brutal da história brasileira. O Capital, por meio das forças de segurança estatais, além de liquidar a vida desta militante, buscou ocultar as circunstâncias de sua morte, como fez com diversos daqueles que ousaram enfrentá-lo. É por isso que o lema Memória e Verdade é de fundamental importância. Poder dar voz à verdade é um elemento crucial para aqueles que lutam por uma efetiva liberdade. 

 

Além disso, em sua formação em psicologia também se preocupou e contribuiu com a construção de um espaço que possibilitasse acesso de trabalhadores a atendimentos psicológicos.

 

Hoje, Iara é homenageada dando nome ao Centro Acadêmico de Psicologia da USP, a uma praça paulista e a algumas ruas do país. Também foi contemplada com a Medalha Chico Mendes de Resistência pelo Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, em 1996. Fazemos coro a essas homenagens, adotando o seu nome para a nossa clínica social, pois esperamos que o compromisso intelectual e militante vivido por essa importante figura do movimento estudantil de psicologia no Brasil inspire nossa escuta e atuação.

 

Nas palavras de seu irmão, Samuel, o legado deixado por Iara, é de que sempre que houver uma situação com a qual não concordamos, devemos lutar contra essa situação. Lutar por uma vida melhor para o povo brasileiro. 

 

Referências

 

BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório. Volume III. Brasília: CNV,2014. 1996p. Disponível em: http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/images/pdf/relatorio/volume_3_digital.pdf

 

IARA Iavelberg, 50 anos depois. Publicado pelo canal Tutaméia, , 2021. 1 vídeo (87 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Rt7gt-mST6Q. Acesso em: 19/05/2022.

 

IARA Iavelberg - Depoimentos Christian Dunker e Ecléa Bosi. Publicado pelo canal do Centro Acadêmico Iara Iavelberg, 2014. 1 vídeo (13 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=gzU5d8qOvp8&ab_channel=CentroAcad%C3%AAmicoIaraIavelberg. Acesso em: 19/05/2022

 

Em busca de Iara. Dirigido por Flávio Frederico. São Paulo, 2013. 1 DVD (90 min).

O Projeto Iara Iavelberg foi criado e é mantido pela Escola de Formação Política da Classe Trabalhadora - Vânia Bambirra

www.efopvaniabambirra.com.br