Iara Iavelberg foi uma estudante de psicologia e militante, assassinada pelas forças repressivas do Estado aos 27 anos, durante a ditadura empresarial-militar, em 1971.
Nascida em uma família judia e comerciante que vivia em um bairro operário, Iara casou-se aos 16 anos e se separou durante a universidade. Ingressou no curso de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) em 1963. Segundo o relatório da Comissão da Verdade:
“Nesse período, Iara passou a atuar no grupo de teatro da USP (TUSP), onde realizou leituras dramáticas de Oswald de Andrade e Bertolt Brecht. Também era frequentadora da Cinemateca Brasileira e do Cine Bijou. Iara foi presidente da Associação Universitária dos Estudantes de Psicologia, onde defendeu a participação estudantil nas decisões sobre a estrutura do curso e se envolveu no debate, ainda incipiente, sobre as internações compulsórias. Contribuiu para a criação do Serviço de Atendimento Psicológico (SAP), voltado para um público de baixo poder aquisitivo. Em 1968, ingressou na pós-graduação e atuou como professora-assistente no Instituto de Psicologia da USP.”
Seu irmão Samuel relatou que, durante a formação em psicologia, Iara também deu aulas em um cursinho popular do movimento secundarista. Naquele momento, assembleias eram convocadas para organizar o enfrentamento ao golpe militar, levando ambos a se envolverem no movimento estudantil.
Ecléa Bosi, em depoimento ao Centro Acadêmico de Psicologia da USP, recorda Iara como uma estudante séria e generosa, muito respeitada por seus colegas. Lembrou que, anos depois, ela trabalhava com análise de conteúdo dos discursos de Fidel Castro, estudo que foi interrompido quando Iara entrou na clandestinidade.
O assassinato de Iara
Iara foi assassinada pela polícia em Salvador, no ano de 1971, aos 27 anos. Durante anos, o Estado sustentou a versão de que ela teria cometido suicídio, conforme o relatório da Operação Pajussara elaborado pelo DOI-CODI. Essa versão passou a ser questionada com o surgimento de trechos do diário de Carlos Lamarca, que relatava a prisão e tortura de diversos militantes em Salvador à época.
As contradições entre os próprios relatórios oficiais são evidentes: enquanto a Marinha afirmou que Iara “foi morta em Salvador (BA), em ação de segurança”, a Aeronáutica alegou que ela “se suicidou em Salvador (BA) [...] no interior de uma residência, quando esta foi cercada pela polícia”.
Os familiares de Iara nunca aceitaram essa versão oficial. Foram 13 anos de batalhas judiciais para obter a exumação de seus restos mortais e realizar uma nova perícia. Em 2013, após 42 anos, uma audiência pública da Comissão da Verdade Rubens Paiva, em São Paulo, comprovou que Iara foi assassinada. Participaram da audiência seu irmão Samuel, a sobrinha Mariana Pamplona, o médico Daniel Muñoz e o advogado da família, Luiz Eduardo Greenhalgh.
Uma inspiração para dar voz ao sofrimento da classe trabalhadora
Iara Iavelberg representa um compromisso intelectual e militante diante de um dos períodos mais brutais da história brasileira. O capital, por meio das forças repressivas do Estado, não apenas tirou sua vida, mas tentou ocultar as circunstâncias de sua morte, como fez com muitos outros que ousaram enfrentá-lo. Por isso, o lema Memória e Verdade é fundamental: dar voz à verdade é essencial para aqueles que lutam por liberdade efetiva.
Durante sua formação em psicologia, Iara também se empenhou em construir espaços de atendimento acessíveis aos trabalhadores. Hoje, ela é homenageada ao dar nome ao Centro Acadêmico de Psicologia da USP, a uma praça em São Paulo e a ruas em várias cidades do país. Em 1996, recebeu a Medalha Chico Mendes de Resistência, pelo Grupo Tortura Nunca Mais (RJ).
Fazemos coro a essas homenagens, adotando seu nome em nossa clínica social. Que o compromisso intelectual e militante dessa figura histórica inspire nossa escuta e atuação.
Nas palavras de seu irmão, Samuel:
“O legado deixado por Iara é de que sempre que houver uma situação com a qual não concordamos, devemos lutar contra essa situação. Lutar por uma vida melhor para o povo brasileiro.”
Referências
• BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório. Volume III. Brasília: CNV, 2014. Disponível em: http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/images/pdf/relatorio/volume_3_digital.pdf(http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/images/pdf/relatorio/volume_3_digital.pdf)
• Iara Iavelberg, 50 anos depois. Canal Tutaméia, 2021. YouTube – 87 min.(https://www.youtube.com/watch?v=Rt7gt-mST6Q)
• Depoimentos de Christian Dunker e Ecléa Bosi. Canal do Centro Acadêmico Iara Iavelberg, 2014. YouTube – 13 min.(https://www.youtube.com/watch?v=gzU5d8qOvp8)
• Em busca de Iara. Dir. Flávio Frederico. São Paulo, 2013. DVD (90 min).